No dia 23 de Abril comemoramos o feriado do nosso santo guerreiro.
Quem foi São Jorge?
Diferente do que muitos pensam, São Jorge não foi um cavaleiro medieval de armadura brilhante.
- A Origem: Ele teria nascido na Capadócia (atual Turquia) por volta do ano 275 d.C.
- O Soldado: Foi um oficial do exército romano sob o comando do imperador Diocleciano. Jorge era cristão, o que era um crime perigoso na época.
- O Martírio: Ao se recusar a abandonar sua fé e a perseguir outros cristãos, ele foi torturado e decapitado em 23 de abril de 303 d.C. em Lida (Israel). É por isso que o dia 23 de abril é sua data litúrgica. Para entender o cenário onde São Jorge viveu, precisamos olhar para o Império Romano no final do século III e início do IV. Era uma época de transição religiosa brutal e fascinante.
1. O Politeísmo Romano (A Religião Oficial)
A religião dominante era o Paganismo Romano. Não era uma religião de “fé” interior como o cristianismo, mas sim de rituais públicos (o Cultus).
Os Deuses: Venerava-se o Panteão Olímpico (Júpiter, Marte, Vênus, etc.). Acreditava-se que o sucesso do Império dependia de manter a “Paz dos Deuses” (Pax Deorum) através de sacrifícios.
O Culto ao Imperador: O Imperador era visto como uma figura divina ou, no mínimo, o intermediário supremo entre os deuses e os homens. Recusar-se a sacrificar ao Imperador era considerado traição política, e foi por isso que São Jorge foi executado.
2. O Cristianismo Primitivo (A Religião Clandestina)
Na época de Jorge, o cristianismo ainda era uma religião minoritária, embora estivesse crescendo rapidamente nas cidades e dentro do próprio exército romano.
Era uma religião ilícita. Os cristãos eram vistos com suspeita porque se recusavam a participar dos festivais públicos e a reconhecer a divindade do Imperador.
A Grande Perseguição: Jorge viveu sob a “Tetrarquia”. O imperador Diocleciano lançou, em 303 d.C., a perseguição mais severa da história romana contra os cristãos, ordenando a destruição de igrejas e a queima de escrituras.
3. O Culto de Mitra (A Religião dos Soldados)
Como Jorge era um oficial de alto escalão, ele conviveu de perto com o Mitraísmo.
O Rival do Cristianismo: Era uma religião de mistério vinda da Pérsia, extremamente popular entre os militares romanos.
Semelhanças: Mitra era um deus solar, nascido em 25 de dezembro, que celebrava a vitória da luz sobre as trevas. Muitos historiadores notam que a iconografia de São Jorge (o cavaleiro derrotando o mal) guarda semelhanças visuais com Mitra matando o touro sagrado.
4. O Culto de Ísis e o Neoplatonismo
Nas camadas mais intelectuais e populares, o culto à deusa egípcia Ísis e as filosofias místicas (como o Neoplatonismo) também eram muito fortes, trazendo uma busca por uma conexão mais espiritual e menos ritualística com o divino.
Poucos anos após a morte de São Jorge, em 313 d.C., o Imperador Constantino promulgou o Édito de Milão, que finalmente deu liberdade de culto aos cristãos. Jorge morreu no último grande esforço do “Velho Mundo” pagão para tentar apagar a nova fé cristã que acabaria por dominar todo o Império.
2. A Canonização pela Igreja Católica
A canonização de São Jorge é curiosa porque ele pertence a uma era anterior aos processos modernos e burocráticos do Vaticano.
- Culto Imemorial: Ele foi reconhecido como santo pelo “censo comum” dos fiéis (vox populi). O Papa Gelásio I, em 494 d.C., já o mencionava como um homem “cujos nomes são justamente reverenciados, mas cujos atos são conhecidos apenas por Deus”.
- O Mito do Dragão: A história de Jorge matando o dragão para salvar uma princesa surgiu apenas no século XI, durante as Cruzadas. A Igreja entende o dragão como uma metáfora para o mal (o paganismo ou o pecado) e não como um animal real.
- Reforma no Calendário (1969): Existe um mito de que o Vaticano “expulsou” São Jorge. Isso é mentira. O que houve foi que, em 1969, a Igreja tornou sua celebração opcional no calendário universal para focar em santos com mais provas documentais, mas ele continua sendo um dos santos mais importantes e venerados do catolicismo.
3. A Relação com Ogum na Umbanda
No Brasil, São Jorge é sincretizado com Ogum, o Orixá do ferro, da guerra e dos caminhos.
- O Porquê do Encontro: Durante a escravidão, os africanos eram proibidos de cultuar seus Orixás. Para sobreviver, eles associaram as características de suas divindades às dos santos católicos.
- A Identidade Guerreira: Ogum é o dono das ferramentas, o desbravador que abre caminhos com sua espada. São Jorge, o soldado romano com sua lança, era a representação visual perfeita para Ogum.
- Diferenças Regionais: No Rio de Janeiro e na maior parte do Brasil, São Jorge é Ogum. Curiosamente, na Bahia, São Jorge é frequentemente associado a Oxóssi (o caçador), enquanto Ogum é associado a Santo Antônio (o santo militar da coroa portuguesa).
O Papel Mágico e Devocional
Para os devotos, seja na Igreja ou no Terreiro, São Jorge/Ogum representa a proteção ativa. Ele não é o santo que apenas consola; ele é o que luta ao seu lado. A famosa “Oração de São Jorge” (“Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge…”) é um dos maiores exemplos de magia verbal de proteção na cultura popular brasileira.
