As Iyami Oxorongá (ou Iyamis) representam um dos conceitos mais profundos e respeitados dentro da cultura iorubá e do Candomblé. Falar delas exige cautela e reverência, pois elas são as donas do poder ancestral feminino, as guardiãs do ventre e do equilíbrio entre a vida e a morte.
Quem são as Iyami Oxorongá?
Iyami Oxorongá não é um Orixá comum que se incorpora, mas uma egrégora de ancestrais femininas coletivas. Elas são chamadas de “Minhas Mães” ou “As Donas do Pássaro Sagrado”.
Representam o poder feminino em seu estado bruto e justiceiro. Elas possuem o domínio sobre o destino e podem tanto trazer a abundância quanto a destruição se o equilíbrio for quebrado. São as senhoras da noite e das forças ocultas.
A Lenda
A lenda diz que as Iyamis receberam de Olodumare o poder sobre o Pássaro Sagrado (Eleiye). Enquanto os Orixás masculinos detêm o poder do ferro, da guerra e da caça, as Iyamis detêm o poder do sangue e da criação.
Conta-se que, em tempos antigos, elas se sentiram desrespeitadas pelos homens e retiveram a fertilidade da terra e das mulheres. Somente através do sacrifício e do reconhecimento da importância do feminino (através de Orunmilá e Oxum) é que a paz foi restabelecida.
O Início: O Poder do Sangue e do Ventre
No princípio da criação do mundo (Ayé), Olodumare (Deus Supremo) enviou os Orixás para organizar a Terra. Ele deu aos homens o Poder do Ferro (Ogum), da guerra, da caça e da administração externa das coisas.
Porém, às mulheres (representadas pelas Iyamis), Olodumare entregou o segredo do Poder do Ventre e o Poder do Sangue. Esse sangue não é apenas o da vida, mas o sangue menstrual e o sangue do sacrifício. Elas receberam a cabaça sagrada (Igba Eye) que contém o pássaro mensageiro. Esse pássaro é a visão delas: ele voa entre o mundo dos vivos e o dos mortos, observando tudo o que é feito no escuro.
A Grande Revolta e a Infertilidade
Diz a lenda que, em um certo momento da história, os homens começaram a agir com arrogância, tentando dominar todas as instâncias da vida e ignorando a importância das mulheres nos rituais e nas decisões da comunidade.
Sentindo-se desrespeitadas, as Iyamis retiraram-se para as profundezas da floresta e acionaram seu poder. O resultado foi catastrófico:
- A terra parou de produzir frutos;
- Os rios secaram ou suas águas tornaram-se amargas;
- O mais grave: as mulheres não engravidavam mais, e as que estavam grávidas não conseguiam dar à luz.
O mundo entrou em um ciclo de morte e estagnação, pois sem o “sim” das Iyamis, nada pode nascer.
O Pacto de Orunmilá e Oxum
Desesperados, os homens consultaram Orunmilá (o Orixá da Sabedoria e do Destino). Através do Ifá, Orunmilá explicou que nenhum sacrifício aos Orixás masculinos funcionaria enquanto as Iyamis estivessem furiosas.
A solução veio através de Oxum. Ela foi a única que conseguiu se aproximar das Mães Ancestrais. Orunmilá ensinou aos homens que eles deveriam render homenagens e oferecer o Ipese (a comida das mães) em locais específicos. Quando as Iyamis aceitaram as oferendas e o reconhecimento de sua soberania, elas libertaram o fluxo da vida.
É por isso que, até hoje, nenhum ritual de Candomblé ou Ifá começa sem que as Iyamis sejam primeiro apaziguadas e saudadas. Elas não pedem adoração, elas exigem respeito.
Características Fundamentais
O Pássaro Oxorongá
O nome “Oxorongá” vem do som emitido pelo pássaro sagrado à noite. Dizem que quando esse pássaro grita sobre uma casa, ele está sentenciando ou observando o caráter dos moradores. Elas são conhecidas como Eleye (Dona do Pássaro).
As Três Faces: Oya, Oxum e Nanã
Embora sejam uma força única e coletiva, as Iyamis se manifestam através das energias de:
- Oya (Iansã): O movimento e a relação com os mortos.
- Oxum: O sangue fértil e a diplomacia.
- Nanã: O sangue estancado (menopausa), a ancestralidade mais antiga e o barro da morte.
A Justiça Cega
As Iyamis não são “boas” nem “más” no conceito humano. Elas são justiceiras. Se alguém quebra um tabu, se um homem desrespeita uma mulher, ou se um segredo sagrado é revelado, elas agem. Elas punem através de doenças inexplicáveis, pesadelos ou infortúnios. Por outro lado, se estão em harmonia, elas garantem que a pessoa nunca passe fome e que sua linhagem continue viva.
O Culto das Sociedades Secretas
Na Nigéria, existe a sociedade Gelede, onde homens se vestem de mulheres e usam máscaras para homenagear as Iyamis, numa tentativa ritualística de acalmar sua força e pedir perdão pelos erros do mundo masculino. No Brasil, esse culto é preservado dentro dos quartos de santo mais antigos, longe dos olhos de curiosos.
Como Cultuar e Quem Pode Cultuar?
- O Culto: Ao contrário dos Orixás, as Iyamis não têm templos abertos ou festas públicas com dança. O culto é discreto e silencioso.
- Quem pode cultuar: No Candomblé, quem lida diretamente com a energia das Iyamis são as mulheres, especificamente as Iyalorixás e as Iyanifás. Homens não têm acesso direto aos segredos das Mães, embora devam rendê-las máximo respeito e fazer oferendas para mantê-las em harmonia.
- O Egungun: Elas estão ligadas à ancestralidade. O culto é focado em apaziguar sua fúria e solicitar sua proteção benevolente.
Oferendas e Locais de Entrega
As oferendas para Iyami são chamadas de Ipese. Elas têm a função de “acalmar” ou “alimentar” as mães para que elas não tragam obstáculos.
Principais Itens:
- Dendê (Epo): O principal elemento de apaziguamento.
- Eko: Massa de milho branco envolvida em folha de bananeira.
- Fígado e miúdos: Geralmente cozidos no dendê.
- Ovos: Representam a fertilidade e o segredo do pássaro.
- Banana-da-terra e Mel: Elementos de doçura e sustento.
Onde Oferecer:
As entregas para as Iyamis nunca são feitas dentro de casa. Os locais sagrados são:
- Encruzilhadas em “T”: Onde os caminhos se encontram.
- Pé de Árvores Sagradas: Especialmente a Iroko (Gameleira Branca), que é a morada principal das ancestrais.
- Copa das Árvores: Em rituais específicos, as oferendas são colocadas no alto, pois elas são as senhoras dos pássaros.
